quinta-feira, 9 de abril de 2009

Realize 29


Ter 29 anos é realmente uma arte. 29 não é 30; 29 é quase 30. E esse “quase” mata: alguns de desgosto, outros, de ansiedade.
Acho que sou a única mulher no mundo que quer virar balzaca. Por quê?
Porque com 30 serei independente, bonita, madura, descolda, bem-sucedida. Vou pra Salvador no Carnaval, vou terminar de mobiliar meu apartamento, vou trocar de carro e, finalmente, vou gostar de Natal – porque vou passá-lo em Nova York! Assim, ter quase 30 é tudo de bom.
Entretanto, devo admitir que os 29 tem os seus percalços. Os menininhos de 22 são muito novos, os de 32 não olham pra você – estão olhando para as de 22.
Você ganha bem, mas ainda não explodiu financeiramente. Tem uma vida legal, mas não a dos seus sonhos. Quer liberdade e compromisso; aventura e segurança. É uma dicotomia constante.
Acho que a minha vida tá só começando mas, ora em vez, me acho uma velha balzaca, enlouquecida e furiosa.
Veja só: outro dia estava eu voltando para casa na Marginal quando reparei que TODOS os outros veículos em movimento estavam me ultrapassando, inclusive os caminhões. Pensei cá com meus botões: onde este povo todo vai com tanta pressa? Eu estou a (e olhei para o “marcador de velocidade”)... 60 km/h.
Senhor! Eu estou na Marginal a 60km/h achando que estou voando baixo!!!
Isso é ter 29 anos: perder a noção, esquecer do mundo, andar no seu ritmo, mover-se com leveza... curtindo cada minuto do fim dos 20.
Doidinha para abraçar os 30.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Feliz


“Estou na melhor fase da minha vida” disse, com uma convicção que assustou até a mim mesma.
Tenho repetido que se tivesse que escrever sobre minha vida, o primeiro capítulo seria o ano passado, o saudoso 2008. Um ano atribulado em que as neuroses me forçaram a voltar para terapia depois de uma crise de pânico dentro do carro, na esquina da Faria Lima com a Juscelino. Eu parei de respirar e decidi que tinha que me tratar.
Já estava em processo de recuperação do corpo e da alma: tinha acabado de voltar de uma viagem a trabalho que me tirou por dois meses inteiros da rotina enlouquecedora da metrópole e da convivência da família e dos amigos. Mergulhei em uma solidão profunda em que só me faziam companhia as galinhas de Tortola e algumas poucas Presidentes ora em vez.
Voltei estranha, perdida, distraída e absolutamente intolerante ao barulho e ao caos.
Parei de beber e de fumar, mergulhei em uma terapia difícil e reveladora. Comecei a nadar. Tomei florais.
Mudei de emprego e saí de casa. Foi quando questionei tudo o que eu achei que queria durante a vida toda. Mergulhei novamente na solidão. Uma solidão imensa, sem explicação.
E voltei a viver. Comecei a lavar minhas roupas, cuidar da minha casa, comprei televisão, sofá, cama.
Aprendi a rezar para agradecer, aprendi que tenho que me concentrar para me manter equilibrada e que é exatamente isso o que eu quero para mim: equilíbrio. Há alguns dias, repito para mim mesma incessantemente, um mantra que, de certa forma, explica a maioria das escolhas que venho fazendo na vida: meu corpo é um templo.
É um templo e, portanto, é sagrado. Deve ser bem cuidado e respeitado.
Nasci de novo e moro sozinha. Não é um sucesso?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Johnny Lirol

Ele morava no quinto e eu, no quarto andar. Ele descia de pijamas para copiar minha lição de casa, eu subia de camisola prá conferir e, nessa época, tínhamos nove ou dez anos de idade.
Sempre que penso na minha infância, lá está ele, com aquele sorriso safado.

Todos os dias ele passava na porta de casa, mochila nas costas: íamos juntos pro colégio. Lá, ele falava prá todo mundo que eu era sua irmã.
Foi para ele que eu liguei quando meu pai morreu. Ele desceu correndo e, de dentro do apartamento, eu pude ouvir as portas da escada de incêndio batendo... e ele correndo prá me abraçar. Foi na cama dos pais dele que eu dormi naquela noite.
Eu era a mais CDF da classe, ele, o mais bagunceiro. Eu passava de ano no 3º bimestre, ele ficava de recuperação todo ano. E era comigo que ele estudava pra passar de ano.
Ele andava com os caras mais descolados, ficava com as meninas mais bonitas da escola. Ele era pop, eu não. Ele sempre foi o meu elo com o que eu nunca seria e sempre esteve ao meu lado.

Eu era séria, instrospectiva, ele sempre com um sorrisão estampado na cara. Dizia que seria meu irmão por toda a vida.
Foi num sonho, um dia desses, que eu percebi: ele sempre foi o meu porto seguro, minha referência de proteção.
Ainda que os anos, a distância ou a correria do dia-a-dia tenha nos afastado, pode acreditar, Johnny Lirol: vou te amar para sempre, meu irmão.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mais uma de tartaruga

Ele diz que é baiano e, realmente, só sendo baiano mesmo.
Estava de férias e resolveu que, com o Sol estalando no côco, em pleno horário do almoço, bem no meio do dia, vestindo bermuda, chinelas e camiseta, dirigindo um carro que não era seu, resgataria sete (sim, sete) tartarugas - ou jabutis - da casa de um parente.
- Vai lá negão! Traz as tartarugas prá cá que estão pintando a casa. As coitadas não podem ficar lá assim... cheiro de tinta e tudo mais. Pega a carripa aí e vai lá resgatar as pobres.
E lá foi ele, contrariando todo o bom senso, fazer o resgate das tartarugas. O que ele decidiu ignorar quando disse que traria as tartarugas foi a Lei 9605/98 - A LEI DOS CRIMES AMBIENTAIS. E Galvão Bueno que me perdoe me apoderar de sua expressão favorita, mas A REGRA É CLARA: O PORTE DE TARTARUGAS É CRIME. Não bastasse ser crime, é ainda, INAFIANÇAVEL. Pelo menos é o que dizem por aí.
Deixa que eu explico: no país tupiniquim ou em terras brasileiras, onde fica o "pulmão do mundo", se estiver carregando arma de fogo - o "treisoitão", saca? - e for surpreendido pelo meganhas, paga fiança e vai chorar na sua cama que é lugar quente. Mas se estiver carregando tartarugas, jabutis e afins, dentro do porta malas do celta que não é seu e que, portanto, você não pode afirmar que está com a documentação em dia - se prepara porque você vai ver o sol nascer quadrado.
E foi assim, na sua baiana inocência, que o negão foi parar numa batida da Polícia Civil, de chinelas havaianas, bermuda e camiseta do timão, meio dia, num Celta cujo licenciamento estava atrasado, com SETE TARTARUGAS ENORMES no porta-malas.
O negão suava, tremia e rezava pois, ao contrário das expectativas, meu caro leitor, nem o desconhecimento da lei a danado podia alegar: ele sabia perfeitamente que no momento em que o porta-malas fosse aberto, não tinha choro nem vela: ELE TAVA ERA FODIDO.
- Carteira de habilitação e documento do carro, por favor.
E lá vai o meganha verificar os documentos apresentados.
- Olha, o carro não está licenciado... não tem jeito, não... vamos ter que estar apreendendo o veículo.
O negão olha, reluta em dizer alguma coisa. Vai falar o que: "leva a porra do carro mas alivia que eu tenho SETE tartarugas no porta-malas???"
- Pega seus pertences e desce do carro. Tem alguma coisa no porta-malas??
PUTAQUEOPARIU! Tem, tem sim, SETE tartarugas.
- Não, nada.
- Pode levar, Amadeu. E você, tá liberado - pode ir buscar seu carro no pátio.
O negão, que só pensava em sair do flagrante da "posse de tartarugas", caminha calma e serenamente até a esquina e, quando percebe que está fora do alcance dos puliça, sai em desabalada carreira e só pára quando arruma um lugar prá se entocar até que o lance todo possa ser resolvido.
Resumo da ópera: um carro - que não era dele, lembra? - e sete tartaruguinhas apreendidas; um susto do caralho; a confirmação de que Deus é brasileiro, É BAIANO SIM, É CORINTHIANO SIM e muito provavelmente, é negro.

(*) Nota da autora: os crimes ambientais não são mais inafiançáveis (
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7223).

domingo, 4 de maio de 2008

Goodbye


What If I wanted to break
Laugh it all off in your face
What would you do
E se eu desmoronar
Se não pudesse mais aguentar
O que você faria
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
E se eu quisesse lutar
Pelo resto da vida implorar
O que você faria
You say you wanted more
What are you waiting for
I'm not running from you
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
look in my eyes
You're killing me killing me
All I wanted was you
I tried to be someone else
But nothing seemed to change
I know now this is who I really am inside
Finally found myself
Finally for a chance
I know now this is who I really am
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
look in my eyes
You're killing me killing me
All I wanted was you
(The Kill - 30 seconds to mars / Pitty)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Rotina - Parte II

Acordou insana naquele dia, possuída:
- Não vou trabalhar hoje, nem a pau!!! - e colocou o despertador para dali vinte minutinhos básicos.
Abriu um único olho e levantou da cama amaldiçoando o momento em que não nasceu em berço de ouro.
- Trabalhar hoje vai ser impossível - pensou lá com seus botões.
Tomou banho com preguiça, muuuito sono. Planejou desmarcar todos os compromissos daquele dia: a depilação na hora do almoço, o happy hour com o amigo querido, sumido há meses. Estava muito cansada... COM SONO!
Pegou o carro, fez o mesmo caminho de sempre, não notou nada de diferente em lugar algum.
Chegou no escritório carregando bolsa, bolsinha, bolsão, casaco, chave, crachá. Largou tudo na cadeira e saiu em busca da copeira:
- Me faz um café. GRANDE. QUE SOOOONO!
Trabalhou o dia todinho sem muitas interrupções; o amigo desmarcou o happy hour aos 45 do segundo tempo.
Desligou o micro e pegou o casaco quando ouviu o celular tocar dentro da bolsa. Viu quem era antes de atender e pensou por um minuto se deveria...
- Alô?? - fingiu ignorar quem ligava.

domingo, 13 de abril de 2008

Quero ser Marin Frist

Fui uma criancinha muito da exibida, minhas ambições sempre envolveram estar em cima de um palco: quis ser bailarina, cantora, modelo, atriz, qualquer coisa em que eu fosse o centro das atenções.
Com o tempo, desenvolvi a timidez: passei a esconder o corpo, o talento, as idéias, os defeitos, as fraquezas, as dores. Hoje, quero ser Marin Frist.
Marin é uma mulher linda e loura, bem sucedida, elegante, independente. Ela escreve livros e artigos; tem um programa no rádio. Morou na cidade grande e foi parar no fim do mundo - literalmente, em uma cidade ridiculamente pequena. Ela é sofisticada. Mora numa casa ma-ra-vi-lho-sa, à beira de um lago igualmente ma-ra-vi-lho-so e, neste exato momento, tem um homem sensacional - e gostoso - apaixonado por ela. Mas é claro que, nem assim, Marin é completamente feliz.
Ainda assim, quero ser Marin Frist.